Perdoar virou mantra de palestra de autoajuda. Mas pra quem carrega ferida racial, perdão fácil é só outro nome pro esquecimento que o opressor sempre pediu.
Uma pessoa que atendo me perguntou, num tom entre culpa e provocação, se precisava perdoar a professora que chamou seu cabelo de "duro" na terceira série. Tinha trinta e oito anos, e ainda sentia o rosto esquentar quando lembrava. Perguntei: perdoar, pra você, é o quê? Travou. Ninguém nunca tinha perguntado antes. Todo mundo tinha mandado perdoar, como quem manda tomar vacina. Mas ninguém tinha explicado que remédio era esse, nem pra que serve, nem se a dose estava certa.
No Brasil, perdão chegou embrulhado em teologia cristã, que por sua vez chegou embrulhada em colonização. Perdoar, nesse pacote, quer dizer engolir, oferecer a outra face, não guardar rancor. É um perdão que serve a quem fere, não a quem foi ferido. Não é coincidência que tenha sido pregado com tanta insistência pra populações escravizadas: gente que perdoa rápido não se organiza pra revidar. bell hooks, em All About Love, é cortante nesse ponto: confundir perdão com aceitação de abuso é sabotar a própria capacidade de amar.
Na clínica afirmativa, a gente começa pelo avesso. Perdão não é obrigação moral, não é prazo, não é sinal de evolução espiritual. É, na melhor das hipóteses, efeito colateral de um trabalho demorado com a própria dor. Quem força perdão antes do tempo costuma estar tentando pular a parte difícil: sentir raiva, sentir luto, sentir o peso da injustiça. E sem essa travessia, o que se chama de perdão é só recalque com marketing.
Audre Lorde, em The Uses of Anger, já avisava que a raiva carrega informação e energia, que funciona como bússola contra o racismo. Neusa Santos Souza, em Tornar-se Negro, ao descrever o sofrimento psíquico de quem se torna negro numa sociedade branca, ajuda a entender por que sentir raiva do racismo é sinal de saúde, não de desajuste. O problema nunca foi a raiva. Foi o destino que se dá a ela. Raiva que vira autoflagelo adoece. Raiva que vira linguagem, política, arte, ou mesmo silêncio escolhido, cura.
Peter Levine, no Somatic Experiencing, descreve o trauma como energia de sobrevivência que ficou presa no corpo. Raiva não descarregada fica ali, circulando. Tentar perdoar antes de descarregar é como fechar uma ferida com pus dentro. Vai infeccionar. Por isso, na terapia, a gente não corre pro perdão. A gente demora na raiva, com cuidado, com testemunha, com ritmo, até que ela se transforme em outra coisa, que às vezes é perdão, às vezes é distância, às vezes é só paz.
O perdão que cura não é dado ao outro. É subtraído de si. Você deixa de carregar uma dívida que o outro nunca vai pagar. Isso não é absolvição: o racismo não está absolvido, o pai ausente não está absolvido, a professora da terceira série não está absolvida. É outra coisa. É você parar de ser o cofre que guarda a dívida alheia. Na chave da comunicação não violenta de Marshall Rosenberg, perdoar fica perto de reconhecer a necessidade não atendida por trás da ação do outro, sem concordar com a ação. É uma distinção fina, mas salva vida.
No rastro do que Isildinha Baptista Nogueira escreve sobre a marca psíquica do racismo no corpo negro, dá pra notar na clínica como muita gente preta confunde cura com reconciliação. Quer terminar bem a história com a mãe que não protegeu, com o pai que bebeu, com a escola que humilhou. Cura não exige final feliz. Exige final honesto. Perdão, nesse sentido, pode ser só o ponto final numa frase que ficou em aberto por décadas, sem abraço, sem reencontro, sem nada além do direito de virar a página.
Não existe régua pra saber a hora. Mas existem sinais que escuto com frequência no consultório, quando alguém está perto de um perdão que não é fuga: a lembrança perde carga, e você conta a cena sem chorar nem travar, conta como quem conta um fato; você sente compaixão pela pessoa sem deixar de reconhecer o estrago, e as duas coisas coexistem sem se anular; você para de querer que o outro entenda, porque o perdão que precisa ser validado por quem feriu ainda não é perdão, é pedido de reparação disfarçado.
Perdoar, pra gente preta, é um ato íntimo e profundamente político. Não é esquecer o que o Brasil fez e faz. É decidir, num canto do próprio corpo, que a dor não vai mais ditar o tamanho da vida. Isso não livra o outro de nada. Livra você do trabalho, não remunerado e vitalício, de ficar de guarda na ferida.
Este texto é de caráter educativo e não substitui o acompanhamento psicológico individual. Se a dor está pesada demais pra carregar sozinha ou sozinho, procurar uma psicóloga ou um psicólogo faz diferença. Em momentos de crise ou sofrimento intenso, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende de graça e em sigilo pelo telefone 188, 24 horas por dia.