Ensaio · Terapia afirmativa

Relacionamentos saudáveis e história familiar

A gente escolhe quem ama, mas quase nunca escolhe sozinho. Dentro de cada par de mãos dadas existem pelo menos quatro avós sentadas no sofá da sala, discutindo em voz baixa.

Tempo de leitura7 min
Publicadojan 2025
CadernoTerapia afirmativa

Quem chegou aqui já desconfia disso. Uma pessoa de vinte e nove anos me contou, sem perceber o tamanho do que dizia, que brigava com a namorada toda vez que ela demorava a responder mensagem. Sabia que era exagero. Sabia que ela trabalhava, que não tinha rompido nada. Mesmo assim o estômago fechava, a cabeça enchia de cenário, e vinha o áudio de três minutos do qual depois se arrependia. Quando perguntei quem, na família, tinha sido abandonado de verdade, veio o travamento, e então: minha mãe, acho. E a mãe dela também. A namorada não estava brigando ali. A briga era com uma linhagem inteira.

Ninguém ama sozinho dentro de si.

Herança não é metáfora

Existe uma ideia meio romântica de que a gente chega adulto no relacionamento. Como se, ao assinar contrato de aluguel com alguém, os quinze, os vinte, os trinta anos anteriores virassem bagagem separada. Não viram. Isildinha Nogueira, ao pensar o significante da identidade negra, mostra que cada pessoa se constitui nas tramas que a antecedem: família, racismo, silêncios de geração. O que a gente chama de jeito de amar é, em boa parte, o resumo comprimido de como fomos amados, e de como amaram quem nos criou.

Em famílias pretas brasileiras essa bagagem tem peso específico. Avós que trabalharam desde criança, mães que dormiram em casa de patroa, pais ausentes não porque não quiseram, mas porque a economia do país exigiu a ausência. O afeto, nesse contexto, muitas vezes veio pela via do provimento: comida na mesa, farda lavada, boletim cobrado. A ternura ficou para depois, e em muitas casas o depois não chegou. Não é falha moral. É o que a sobrevivência deixou sobrar.

A régua que mede errado

Vale lembrar de onde vem a definição de família saudável que circula nos consultórios. Boa parte dela foi mapeada em famílias brancas de classe média de outro país, e depois universalizada como se descrevesse uma forma natural de organizar a vida. Quando essa régua chega à família preta brasileira, o resultado é previsível. Onde há chefia feminina, o modelo lê falta. Onde há parentesco ampliado, com madrinhas que criam e irmãos que cresceram em casas distintas sem que o pertencimento se rompa, o modelo lê emaranhamento. O dado ajuda a dimensionar: segundo o IBGE (PNAD Contínua, 2022), entre as famílias chefiadas por mulheres no Brasil, cerca de 56% têm à frente uma mulher negra. Patricia Hill Collins chamou de othermothering a maternagem exercida por quem não é mãe biológica, mas assume o cuidado dentro de redes comunitárias: prática com raiz em estruturas africanas, não desvio de norma.

A dívida que você não contraiu

O senso comum terapêutico gosta de dizer que a gente repete o que viu em casa. Metade de verdade. A outra metade, mais interessante, é que a gente também repete o oposto do que viu, achando que assim se liberta, e termina preso do mesmo jeito, só que pelo avesso. Filha de pai explosivo que jura nunca levantar a voz e vira quem some sem discutir. Filho de mãe sacrificada que jura nunca se anular e vira quem não cede em nada. Os dois seguem respondendo ao mesmo roteiro antigo.

Reconhecer isso não é passar pano para ninguém. Não é dizer seus pais fizeram o que puderam como desculpa universal. É entender que o vínculo adulto carrega um contrato implícito herdado, e que esse contrato precisa ser lido em voz alta para poder ser renegociado. Marshall Rosenberg, na Comunicação Não Violenta, chamaria isso de identificar a necessidade por trás da queixa. Quando a pessoa dos áudios de três minutos entendeu que pedia, na verdade, uma garantia que a própria mãe nunca tinha recebido, a briga com a namorada diminuiu sozinha.

O mito do par que cura tudo

Existe uma fantasia perigosa, sobretudo em quem cresceu na falta, de que o relacionamento certo vai reparar o que a infância não deu. É o roteiro da comédia romântica adaptado para a ferida: se a pessoa certa me amar do jeito certo, eu fico bem. Não funciona assim. bell hooks desmontou essa ilusão ao escrever que amor não é antídoto mágico, é prática cotidiana de cuidado, responsabilidade e verdade. Nenhuma parceria, por mais generosa, dá conta de compensar sozinha vinte anos de fome afetiva.

Pior: quando se espera isso do outro, o outro vira refém. Qualquer falha pequena, um esquecimento, um cansaço, uma distração, é lida como prova de que você não basta. Quem está ao lado começa a andar em ovos, e o que podia ser vínculo vira vigilância. Peter Levine, no trabalho com o corpo do Somatic Experiencing, diria que o sistema está buscando no presente a descarga que não pôde acontecer no passado. Buscar no lugar errado é quase garantia de não encontrar.

Revisar sem demolir

Olhar para a história familiar dentro de um relacionamento adulto não é abrir tribunal. É fazer arqueologia útil. Algumas perguntas que têm ajudado, no consultório, quem chega cansado de repetir ciclos:

  • Que gesto de quem me criou eu mais repito quando estou no limite, e esse gesto serve para este relacionamento?
  • Quando brigo, estou brigando com quem está na minha frente, ou com alguém que já não está mais na sala?
  • O que, na forma como meus pais ou avós se relacionavam, eu quero conscientemente manter, e o que quero deixar ir?

Relacionamento saudável, na clínica afirmativa, não é o que apaga a história. É o que consegue segurá-la sem deixar que ela dirija o carro. Amar gente preta, sendo gente preta, é também isso: reconhecer as avós que sentam na mesa de jantar sem pedir licença, e decidir, junto delas, que dessa vez a conversa vai ser outra.

Este texto é de caráter educativo e não substitui o atendimento psicológico individual. Se a leitura mexeu com feridas antigas e você sente que precisa de apoio, procurar uma psicóloga ou um psicólogo pode ajudar a renegociar esses contratos herdados com mais cuidado. Em momentos de sofrimento intenso, o CVV atende de graça, em sigilo, pelo telefone 188 e no site cvv.org.br.

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Não pare na teoria.

A leitura ajuda, mas não substitui escuta. Quando quiser, a busca está aberta.