Ensaio · Saúde mental

Luto coletivo processando a perda historica

Existe um luto que nao comecou em voce e nao vai terminar em voce. Ignorar nao dissolve nada, so empurra a dor pro corpo, que cobra a fatura em juros compostos.

Tempo de leitura6 min
Publicadomai 2026
CadernoSaúde mental

A avo morreu e ninguem na familia sabe direito onde nasceu o bisavo dela. A certidao se perdeu, o sobrenome e do senhor de engenho, a foto mais antiga e dos anos 50. Fica uma lacuna que funciona como dor fantasma: voce sente, mas nao tem onde localizar. Esse buraco tem nome em psicologia diasporica. Chama-se luto coletivo. E, no Brasil, ele e mobilia da casa.

Tem luto que e herdado, empilhado, distribuido entre geracoes.

A ferida que vem da travessia

A psicologia tradicional treina para o luto agudo: alguem morre, voce sofre, reorganiza o mundo em etapas. O modelo de cinco fases de Elisabeth Kubler-Ross, formulado em Sobre a Morte e o Morrer (1969), virou bibliografia obrigatoria. So que esse modelo foi pensado para perdas circunscritas, nao para quem perdeu o nome da terra, a lingua da avo, o contorno inteiro do corpo familiar, num sequestro continental. Saidiya Hartman, em Lose Your Mother (2007), chama isso de afterlife of slavery: a vida que segue depois da escravidao, mas ainda dentro dela. Christina Sharpe, em In the Wake (2016), nomeia o estado de estar na esteira, existir no sulco aberto por seculos de violencia que nunca se fechou.

O luto que nao pode ser feito no seculo 18 nao evaporou. Ficou depositado em corpos, atravessou geracoes, chegou ate aqui. Grada Kilomba, em Memorias da Plantacao, descreve o racismo como realidade traumatica que se manifesta nao so como lembranca explicita, mas como afeto que parece sem origem clara: voce chora sem saber direito por que. A psicologia ocidental leria como patologia. As tradicoes pretas sempre leram como memoria legitima que pede ritual.

O luto que o Estado produz e recusa reconhecer

Esse luto nao e so memoria antiga, e atualidade. Enquanto se tenta elaborar a perda ancestral, o presente entrega perdas novas. O Atlas da Violencia, publicado pelo IPEA em parceria com o Forum Brasileiro de Seguranca Publica, registra ano apos ano que a maioria das vitimas de homicidio no Brasil e negra, com uma taxa varias vezes maior do que a de pessoas nao negras. Esses numeros nao descrevem tragedia acidental, descrevem politica. Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (1961), ja nomeava o mecanismo: a violencia colonial nao e excesso, e ordenamento. Define quem tem direito a vida e, por consequencia, quem tem direito ao luto.

O massacre de Vigario Geral, em 1993, no qual 21 moradores foram executados na favela da zona norte do Rio, segue sem condenacao definitiva mais de tres decadas depois. Antes dele, a chacina de Acari (1990) levou onze jovens sem deixar corpos, nunca encontrados ate hoje, e o Carandiru (1992) matou 111 presos numa operacao que o Estado chamou de contencao. Lelia Gonzalez nomeou o racismo brasileiro como uma maquina de recusa do reconhecimento, um racismo por denegacao: a violencia e perpetrada e depois negada, impedindo qualquer elaboracao coletiva. Neusa Santos Souza, em Tornar-se Negro, documentou o preco psiquico de uma sociedade que exige da pessoa preta que ela se negue para existir.

Nem heranca, nem desculpa

Cuidado com a leitura facil: entao todo problema preto e trauma ancestral. Nao e. Essa generalizacao vira alibi para nao tratar o que e tratavel no aqui e agora. Kabengele Munanga, em sua reflexao sobre os usos e sentidos da negritude, alerta para o risco de essencializar a identidade negra; romantizar a dor ancestral pode ser outra forma de reduzir o sujeito preto a uma ferida exotica. Tem dor que e daqui mesmo: desse trabalho especifico, dessa relacao especifica, dessa semana especifica. Se tudo e ancestral, nada e atual, e a clinica perde o solo.

A boa escuta distingue as camadas sem hierarquizar. Existe a perda concreta de quem morreu semana passada. Existe o luto pela infancia que o racismo escolar roubou. Existe a memoria do corpo, de algo que aconteceu antes de voce nascer. Pauline Boss chamou parte disso de ambiguous loss, a perda ambigua: o luto que nao fecha porque a fonte nao para de produzir. Tudo isso pode estar na mesma pessoa, ao mesmo tempo, e pede uma escuta que transite entre os registros sem confundi-los.

Processar coletivamente o que e coletivo

Luto coletivo nao se resolve sozinho num consultorio. Ele pede gestos de escala proporcional, e as comunidades pretas brasileiras tem tecnologias ancestrais para isso. O terreiro faz esse trabalho ha seculos. O axexe, rito funebre do candomble que celebra a passagem de quem partiu, faz. Congada, maracatu, jongo, samba de roda fazem. Nao sao folclore, sao dispositivo de elaboracao de luto. O que a clinica oferece e complemento, nunca substituto. Alguns caminhos que funcionam mesmo:

  • Reaproximar-se de praticas culturais pretas que nomeiam a ancestralidade, nao como hobby, como laco e terapia estendida.
  • Reconstruir a memoria da familia ate onde for possivel: conversar com os mais velhos enquanto estao por perto, guardar foto, nome, receita, oracao.
  • Aceitar que algumas lacunas nao vao fechar, e que conviver com o buraco sem cair nele tambem e parte do trabalho.

Luto coletivo nao se supera no sentido em que a autoajuda promete. Ele se atravessa. E, no atravessamento, a dor que parecia so sua revela que tem companhia de seculos, o que, por mais estranho que pareca, alivia. Chorar o que nao se viveu e uma das formas mais antigas de preservar memoria. A diaspora inteira esta feita disso. Ninguem carrega isso sozinho. Nunca carregou.

Este texto e de carater educativo e nao substitui atendimento psicologico individual. Se a dor estiver pesando demais, procurar uma psicologa ou um psicologo pode ajudar a sustentar essa travessia. Em momentos de sofrimento intenso, o CVV atende de graca e em sigilo pelo 188, 24 horas por dia.

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Não pare na teoria.

A leitura ajuda, mas não substitui escuta. Quando quiser, a busca está aberta.