Ensaio · Identidade

Afrodescendencia raizes e futuro

Afrodescendência não é certificado de sofrimento nem carteirinha de autenticidade. É projeto em curso, uma forma de herdar o passado sem virar refém dele e seguir construindo.

Tempo de leitura6 min
Publicadojan 2025
CadernoIdentidade

Tem uma pergunta que aparece em roda de conversa, quase sempre feita por gente jovem: de que adianta saber que meu tataravô foi escravizado se eu preciso resolver o boleto de amanhã? A pergunta é boa. Desmonta o discurso fácil que transforma raiz em obrigação moral. A afrodescendência só vira potência quando deixa de ser dever de memória e passa a ser recurso para o presente. Conceição Evaristo chama isso de escrevivência: a memória que age, não a memória que pesa.

Raiz não é corrente. Raiz é o que segura o vento.

Existe um jeito de falar de ancestralidade que transforma o passado em peso. Como se cada pessoa preta tivesse que carregar sozinha a conta de quatrocentos anos. Esse enquadramento, por mais bem-intencionado que seja, produz paralisia. Na natureza, raiz não prende: é o que permite à planta subir. Árvore de raiz funda não é árvore presa, é árvore que aguenta o vento. Fanon, em Pele Negra, Máscaras Brancas, já alertava sobre o risco de a pessoa negra se fixar na ferida colonial a ponto de não conseguir mais imaginar futuro. A armadilha continua de pé: muita reflexão sobre afrodescendência trava na denúncia, e denúncia sozinha não constrói. Precisa vir junto com projeto, com invenção.

Aqui você não precisa escolher entre as palavras que carrega. Há uma tensão viva entre "afrodescendente" e "negro". Uma fala de linhagem, do fio que atravessa o oceano. A outra fala do corpo que se tem hoje, do racismo no ônibus que se pega, na entrevista que não chega. Kabengele Munanga apontou como a multiplicidade de categorias no Brasil serviu, historicamente, para diluir a consciência coletiva: quanto mais termos, mais difícil a solidariedade. Saber disso não te obriga a uma palavra só. Te dá repertório para escolher de olho aberto.

Falar em "raízes africanas" sugere uma árvore de tronco único, origem comum. Mas a África não é um país. Quem foi trazido ao Brasil veio de povos iorubás, bantos, ewes, hausás, mandingas, com línguas e cosmologias distintas. O que chamamos de herança africana é um entrelaçamento de muitos fios, um rizoma: vários pontos de entrada, sem centro fixo, sem hierarquia entre as origens. Lélia Gonzalez deu nome a essa invenção do lado de cá ao propor a amefricanidade, a experiência negra das Américas que incorpora a presença indígena e a marca latino-americana. Beatriz Nascimento, que dedicou a vida a repensar o quilombo, lia essa multiplicidade como potência: o quilombo não como passado a reverenciar, e sim como projeto que perpassa séculos.

Existe também uma retórica otimista, circulando em palestras e posts, de que a ascensão da população negra é inevitável: basta tempo, basta representação, bastam alguns anos a mais. É mentira confortável. Nada é inevitável. O Brasil já provou várias vezes que absorve discurso progressista sem mover estrutura. Afrodescendência como projeto de futuro exige trabalho político, econômico e subjetivo, e esse trabalho não se faz sozinho. Djamila Ribeiro insiste no lugar de fala não como silenciamento, mas como responsabilidade: quem herda o nome precisa decidir o que faz com ele. Ser afrodescendente, nesse sentido, não é condição biológica. É posição assumida. Não basta ter vindo de. Tem que decidir ir para onde.

Uma das coisas mais bonitas que a afrodescendência produz, quando funciona, é um tipo específico de tempo. O tempo da ciranda, em que quem é mais velho ensina sem se achar guru e quem é mais novo aprende sem se achar vazio. Esse tempo está em risco. A lógica das redes acelera, fragmenta, isola. Quem é jovem e preto hoje tem acesso a mais informação do que qualquer geração anterior e, paradoxalmente, menos ligação com pessoas pretas mais velhas que não estejam no Instagram. Reatar esse fio pede sair da tela: procurar os griôs da quebrada, as mães de santo, as professoras aposentadas, quem viveu a ditadura, quem fundou sindicato. Não como pesquisa de campo, como parentela. Maya Angelou escreveu que a história, por mais dolorosa, não pode ser desvivida, mas, encarada com coragem, não precisa ser revivida. Ancestralidade madura é isso: herdar sem repetir.

Transformar afrodescendência em projeto, e não em crachá, pede atos pequenos e repetidos. Algumas direções que têm aparecido em coletivos e redes pretas:

  • Aprender uma habilidade concreta que sirva ao seu povo (saúde, direito, tecnologia, pedagogia, ofício) e colocar essa habilidade em circulação onde ela faz falta.
  • Sustentar economia preta no cotidiano: comprar, indicar, contratar, investir em gente preta de forma sistemática, não simbólica.
  • Formar estudo em grupo, não para virar intelectual, mas para que o pensamento não fique solitário, que é como ele emperra.

Afrodescendência não é fardo nem troféu. É um modo de estar no mundo sabendo de onde se vem e decidindo, a cada semana, para onde se vai. Entre a palavra que nomeia a ferida e a palavra que projeta o desejo, a identidade negra no Brasil vive, não resolvida, sempre em tensão. E talvez seja exatamente aí que mora a força. Raiz funda, copa larga, e a gente seguindo, sem correria, sem mistificação, com a teimosia de quem entendeu que o futuro não cai pronto. Vai ser feito, de novo, com as mãos que a gente herdou.

Este texto é conteúdo educativo e de reflexão. Não substitui o acompanhamento psicológico individual. Se a relação com a própria história e identidade vem pesando, vale procurar atendimento com profissional de psicologia.

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