Era quase cinco da tarde quando Rebeca virou a esquina da Rua Tenente Pena e viu a figura parada diante da banca de revistas. A mesma postura ereta, a mesma bolsa de couro marrom que ela nao sabia que ainda guardava na memoria.
A professora. Rebeca tinha treze anos quando a professora Aparecida pediu que a escola a pulasse de serie, segurando o caderno de redacoes como quem apresenta uma prova em tribunal. Agora Rebeca tinha vinte e seis e cursava o quinto semestre de Letras na federal. O sol de fevereiro batia de lado nas calcadas do Bras, aquele calor de asfalto quente misturado com o cheiro de churros vindo do carrinho na esquina. Ela ainda estava com o sanduiche do bandejao na boca, literalmente, mordendo o ultimo pedaco enquanto reconhecia o perfil.
A professora virou antes que ela conseguisse decidir se ia passar direto. Sorriu de um jeito que nao precisava de contexto. Eu sabia que voce ia longe, disse, e nao foi elogio, foi constatacao, quase geografica, como quem aponta o norte num mapa. Rebeca nao soube o que responder. Engoliu o pao. Ficaram ali dois minutos enquanto dois onibus passavam barulhentos, o 175 e o Circular, e esse curto tempo reorganizou alguma coisa que ela ainda nao conseguia nomear.
O vizinho. Tres semanas depois, no elevador do predio onde alugava um quarto com mais duas colegas, Rebeca entrou no segundo andar com a mochila pesada de livros e encontrou seu Benedito descendo do setimo. Oitenta e dois anos, bengala de aluminio, chapeu de palha que usava dentro de casa porque dizia que o sol entrava pelas janelas de manha. Voce mora aqui ha quanto tempo?, ela perguntou, so pra nao ficar em silencio. Desde que isso aqui era campo de futebol, respondeu ele, serio. Veio da Bahia em sessenta e tres. A cidade tinha outro cheiro.
O elevador era pequeno e cheirava a naftalina e a fritura de algum andar intermediario. Seu Benedito contou que onde agora era o viaduto tinha um rio. Que pescava ali aos domingos. Que a cidade foi crescendo por cima das coisas sem perguntar pra quem vivia nelas. Falou tudo isso com a calma de quem inventariou a perda e encontrou um jeito de carregar o inventario sem que ele pesasse mais do que o corpo. No terreo, saiu devagar. Rebeca ficou parada um segundo antes de empurrar o portao, olhando para as costas dobradas como se estivesse lendo alguma coisa escrita ali, uma frase que precisaria decifrar mais tarde, talvez numa madrugada de prova.
A biblioteca. Em marco, numa sexta a noite, ela foi a biblioteca do bairro porque a colega tinha insistido. Uma apresentacao de poesia. Cadeiras de plastico dispostas em meia-lua, uma caixa de som portatil, uma mulher de uns quarenta anos com turbante amarelo e voz que nao pedia licenca. A poeta recitou de cor. Falava de corpo, de cal, de nomes de avo, de onibus lotado as seis da manha. A biblioteca cheirava a livro velho e a mofo bom, aquele mofo de lugar que guarda coisa. Rebeca comeu um pedaco de bolo de laranja que alguem tinha deixado numa bandeja perto da porta, massa umida, casca ralada de verdade, e ficou ouvindo com o prato de isopor no colo.
Numa das estrofes, a poeta parou no meio, fechou os olhos por tres segundos e recomecou mais devagar. A sala ficou quieta de um jeito que Rebeca raramente tinha experimentado, quieta como se todo mundo tivesse concordado em respirar junto.
A noite. Naquela noite, ja no quarto, Rebeca abriu a janela que dava para o corredor externo do predio. O ar estava parado, quente ainda, com o cheiro de terra molhada de uma chuva que tinha caido as dez e ja secado. La embaixo, a rua estava quase vazia. Uma pessoa empurrava uma carroca com latinhas. Um gato atravessou devagar entre dois carros. Ela ficou com os cotovelos no peitoril, sem pensamento em forma de frase, apenas acordada naquele ponto especifico do mapa, o Bras, segundo andar, fevereiro virando marco.
Nenhum desses tres encontros foi congresso, viagem cara ou mentoria escolhida por algoritmo. Foram uma esquina, um elevador, uma cadeira de plastico. O que muda a perspectiva quase nunca chega marcado na agenda. Chega de lado, numa frase de dez segundos dita por quem nao tinha intencao de ensinar nada. O que faltava, em outras epocas da vida dela, nao era o encontro. Era a disponibilidade interna de reconhecer, enquanto a pessoa ainda falava, o peso do que estava sendo oferecido.
Por isso ela passou a fazer a unica coisa que esses encontros pediam de volta. Diminuir o passo no trajeto de sempre. Ficar perto de quem tem mais idade e de quem tem menos. Desconfiar da propria certeza sobre quem a outra pessoa e antes dela dizer. Porque o simples fato de estar ali, inteira, no segundo andar de um predio do Bras, ja era, por si mesmo, uma resposta a uma pergunta que ela nao tinha feito em voz alta.
Este texto e de carater educativo e reflexivo. Nao substitui o acompanhamento psicologico individual. Se voce sente que precisa de apoio, procurar uma psicologa ou um psicologo pode ajudar.