Relato · Histórias

Maternidade e luta antirracista

Mãe preta pare com o ouvido no chão.

Tempo de leitura6 min
Publicadojan 2024
CadernoHistórias

O corredor da escola cheirava a piso encerrado e a dinheiro antigo. Viviane segurou a mão de Davi com os dedos levemente apertados, não o bastante para ele perceber, só o bastante para ela sentir que estava ali. Sete anos. Davi tinha sete anos e uns cachos que ela penteava toda manhã com óleo de coco e paciência, e agora os dois caminhavam entre quadros de ex-alunos nas paredes: rostos claros, uniformes brancos, sorrisos que não reconheciam a existência deles.

A secretária os recebeu com um sorriso que demorou meio segundo a mais para chegar. Viviane conhecia aquele meio segundo. Sabia de cor o que ele significava, a reorganização interna de quem não esperava, a surpresa administrada, o esforço para parecer que não havia esforço nenhum. Ela se sentou na cadeira de frente à mesa, cruzou as pernas, colocou a bolsa no colo com os dois braços sobre ela e respirou pelo nariz.

Três semanas antes, Davi tinha chegado do colégio anterior, uma escolinha perto de casa, em Madureira, com a mochila nas costas e uma pergunta que ele fez como se estivesse perguntando o que tinha para o jantar: "Mãe, por que a professora me chama de moreninho?" Viviane estava na cozinha mexendo arroz. Desligou o fogo antes de responder, porque precisava de um segundo. O segundo não foi suficiente. Ela chamou ele de lindo. Disse que moreno era uma palavra que algumas pessoas usavam quando não sabiam bem o que dizer. Passou a mão nos cachos dele e falou que aquele cabelo era herança, e que herança é coisa preciosa.

Na escola nova, a secretária explicou as mensalidades, o material didático, o sistema de avaliação. Era uma escola boa, diziam os colegas de trabalho. Tinha passado a ser possível porque Viviane havia sido promovida, e ela havia decidido que Davi ia ter acesso ao que ela não teve. A mulher falou, Viviane escutou, e em algum momento a secretária disse, inclinando a cabeça para Davi com um sorriso: "E ele é tão bem-comportadinho." A palavra tinha um diminutivo que não precisava estar ali. Viviane assinou os papéis, pegou a via dela, agradeceu, e só quando chegaram na calçada, no barulho da Tijuca de uma quinta-feira, soltou a respiração que estava segurando desde o corredor.

Há um saber que se carrega como segunda pele, cultivado ao longo de gerações. Marinete da Silva sabia, quando Marielle tinha onze, doze, treze anos, que cada saída era uma negociação com o acaso. As mães de Acari sabem, aquelas mulheres cujos onze filhos desapareceram em 1990 numa chacina que o Estado levou décadas sem resolver, e que durante anos foram às audiências com as fotos plastificadas na altura do peito. Há quem tenha sabido ao identificar o corpo de um filho morto numa operação policial e ter que voltar para casa e continuar. Viviane sabia também. Não da mesma forma, não ainda, mas o saber já estava instalado no corpo como memória muscular: a tensão na nuca quando o ônibus para num blitz, o cálculo de qual fila do mercado é mais segura, a conta automática toda vez que Davi se afasta em lugar novo.

Existe uma mitologia tóxica que transforma a mãe preta em símbolo de resistência antes mesmo dela poder ser pessoa. A mãe guerreira, a que aguenta, a que carrega o mundo nas costas. Essa imagem, que parece homenagem, é camisa de força: proíbe de cansar, de errar, de querer menos. Amar um filho preto neste país é prática política, sim, mas não é a prática de sumir dentro do próprio sacrifício. É a prática de ensinar que ele tem direito ao tédio, à bobagem, à infância lenta, coisas historicamente negadas a crianças pretas em nome de uma precocidade forçada. bell hooks pensou o amor como prática política, escolha ética e ato de justiça, não sentimento passageiro. Deixar uma criança preta ser criança é um ato antirracista que não cabe em camiseta.

O dilema mais duro nunca é entre trabalhar e cuidar. É entre proteger e não encolher. Proteção demais encurta a vida dele antes do mundo encurtar. Proteção de menos manda uma criança sem mapa para um terreno minado. Essa calibragem não tem manual, só tem as outras mães, as tias, as avós, o terreiro, a roda. Conceição Evaristo, na sua escrevivência, reivindica o direito de sonhar mesmo quando o sonho parece desajustado ao tamanho do quarto. O desejo é que a criança sonhe grande sem ingenuidade, que saiba o peso do mundo sem deixar o mundo pesar nela.

Na calçada, Davi escolheu caju e goiaba. Os dois ficaram ali com os casquinhos, e ele lambeu o sorvete com a concentração que as crianças colocam nas coisas pequenas. Uma gota de caju escorreu pelo punho dele, e ele estendeu o braço, automático, sem parar de olhar para a rua. Viviane pegou o lenço da bolsa e limpou, devagar, pensando em tudo que ia ter que ensinar e em tudo que queria que ele nunca precisasse aprender. O mundo vai cobrar dele seriedade cedo. A única coisa que sobra contra essa cobrança é a memória do tempo em que ele pôde simplesmente ser um menino, sem adjetivos, no colo de quem escolheu amá-lo como recusa e como futuro.

Este é um conteúdo educativo e de reflexão. Ele não substitui o acompanhamento psicológico individual. Se o peso de cuidar tem sido grande demais, ou se você atravessa um sofrimento que não cabe sozinho, procurar uma psicóloga ou um psicólogo pode ajudar. Em momentos de crise emocional, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende de graça e em sigilo pelo telefone 188 e pelo site cvv.org.br, a qualquer hora.

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A leitura ajuda, mas não substitui escuta. Quando quiser, a busca está aberta.