Ensaio · Comunidade

Liderança colaborativa em movimentos

Toda vez que um movimento preto vira manchete, a imprensa procura um rosto. Raramente pergunta quem segurou a logística, quem cozinhou, quem acordou cedo para imprimir o panfleto.

Tempo de leitura7 min
Publicadojan 2025
CadernoComunidade

Tem uma cena que se repete: o ato termina, as câmeras se apagam, e o que fica na foto é uma pessoa falando ao microfone. O que não entra no enquadramento é a estrutura que sustentou aquele minuto, quem buscou o som, quem fez a quentinha, quem colou cartaz na madrugada. Chamar isso de bastidor é minimizar. É o movimento inteiro, só que sem crédito.

O poder que circula não desmorona quando alguém cai.

A liderança que a foto não registra

A ideia de liderança que herdamos é a do paletó no comício. Um corpo, uma voz, um carisma. Ela funciona bem para biografias e péssimo para movimentos que precisam durar mais do que a vida de uma pessoa. Quando Ella Baker dizia, no movimento por direitos civis dos Estados Unidos, que gente forte não precisa de líder forte ("strong people don't need strong leaders"), falava exatamente disso: a fixação na figura individual é uma forma sofisticada de fragilidade.

No Brasil, Beatriz Nascimento já apontava algo parecido em "O conceito de quilombo e a resistência cultural negra", ao tratar o quilombo não como território isolado, mas como relação, um jeito de organizar a vida em que a autoridade circula. O quilombo, lido assim, não é nostalgia histórica. É gramática política. Ensina que segurar movimento é tarefa de muita gente fazendo pouca coisa cada uma, ao mesmo tempo, com algum grau de confiança.

Marielle não saiu do nada

Existe uma imagem que circula sem descanso: o rosto de Marielle Franco, sorriso firme, tornado ícone. A imagem é justa e potente. Mas é também parcial. Marielle veio do movimento de favela, da Maré onde nasceu e cresceu, do trabalho de base em organizações como o Ceasm e da militância feminista e negra que a antecedeu e a formou antes de chegar à Câmara pelo PSOL. Quando o luto a reduz a mártir solitária, repete-se o que o poder sempre fez com os movimentos pretos: transformar coletivo em pessoa, processo em culto, tecido em pôster descolado do seu contexto.

A mesma lição está em quem construiu instituição para durar. Sueli Carneiro fundou o Geledés em 1988 junto com outras mulheres negras, e o instituto sobrevive como organização porque foi pensado com sucessão, não como plataforma pessoal. Lélia Gonzalez não surgiu de talento isolado: veio do IPCN, do MNU, do mesmo campo intelectual de Beatriz Nascimento e Abdias do Nascimento. A marca de uma liderança madura é justamente essa, a de quem prepara a casa para seguir de pé sem ela.

Horizontal não é sem rumo

Todo mundo que passou por coletivo sabe: reunião horizontal mal conduzida vira tortura. Gira, gira, e ninguém decide nada. Disso nasce uma crítica preguiçosa que usa o fracasso de algumas assembleias para defender o retorno ao chefe, como se a única alternativa à confusão fosse o comando.

Liderança colaborativa não é ausência de decisão. É outro desenho de decisão. Papéis rotativos, prazos claros, quem faz o quê escrito em algum lugar. adrienne maree brown, em "Emergent Strategy" (2017), chama isso de estratégia emergente, pequenas práticas que, repetidas, produzem estrutura sem produzir hierarquia rígida. A Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras opera nesse princípio, como rede que coordena dezenas de organizações de forma articulada, e sua horizontalidade não é ingenuidade, é escolha. Funciona quando o grupo aceita que coordenação dá trabalho. Desmorona quando todo mundo quer a camiseta, mas ninguém quer lavar o banheiro depois do ato.

O carisma como armadilha

Há uma tentação específica nos movimentos pretos brasileiros: transformar cada liderança forte em símbolo, e cada símbolo em monumento. O problema não é admirar, é quando a admiração substitui a organização. Se o movimento depende daquela pessoa para respirar, basta uma prisão, um adoecimento, uma cooptação, e tudo desmorona. A história da repressão no Brasil sabe disso melhor que a gente. Mata-se a cabeça para descabeçar o corpo.

Abdias do Nascimento, quando formulou o quilombismo em "O Quilombismo" (1980), não estava propondo um novo chefe. Estava propondo um método. Dividir responsabilidade protege o movimento contra a perda de qualquer pessoa, inclusive contra o ego de quem ele mesmo formaria. Por isso a Coalizão Negra por Direitos, ao reunir mais de cem organizações em 2019, fez convergência sem que um único nome conduzisse a cena. Liderança colaborativa, nesse sentido, é antirrepressão aplicada.

O que o terreiro ensina ao coletivo

Quem frequenta terreiro aprende cedo que autoridade e função são coisas distintas. A mãe de santo tem autoridade espiritual, mas a roda só gira se o ogã toca, se a cozinha cozinha, se a casa se varre. Ninguém é ajudante de ninguém, cada função é a função. Movimento preto que leva isso a sério organiza de outro jeito. Não vira comitê central, vira terreiro. O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto mantém estrutura de base que impede a personalização excessiva: antes de qualquer nome visível, há a ocupação, a assembleia, o mutirão. O nome emerge do processo, não o precede.

Na prática, isso implica combinados chatos, mas libertadores:

  • Rotacionar quem fala com a imprensa, mesmo quando alguém fala melhor. O microfone forma gente.
  • Separar quem decide de quem executa de quem cuida, e remunerar, quando der, quem cuida.
  • Fazer registro público das decisões, para que a memória do grupo não more na cabeça de uma pessoa só.

Liderança colaborativa não é humildade performática, nem slogan de edital. É método de sobrevivência para movimentos que pretendem durar mais que o próximo ciclo eleitoral. Liderança que não prepara quem vem depois não é liderança, é ocupação. A pergunta que fica, toda vez que uma organização preta é elogiada por ter uma liderança forte, é outra: e se, em vez disso, tivesse muitas lideranças suficientes?

Texto de caráter educativo e reflexivo sobre organização coletiva. Não é orientação clínica nem substitui acompanhamento psicológico individual.

Continue lendo

Não pare na teoria.

A leitura ajuda, mas não substitui escuta. Quando quiser, a busca está aberta.