Ensaio · Comunidade

Sororidade: encontrando força com outras mulheres

A palavra é nova. A prática é antiga.

Tempo de leitura6 min
Publicadojan 2025
CadernoComunidade

Sororidade virou palavra de camiseta, hashtag de março, slogan de marca. No caminho, quase perdeu o que tinha de mais incômodo: a ideia de que mulher preta precisa de outra mulher preta pra respirar.

Num sábado qualquer, num salão de quebrada, enquanto o cabelo hidrata sob a touca, a conversa corre sobre ex, chefe, médico que não escutou, criança que não dorme. Não tem nenhuma pessoa de terapia naquela sala, e ainda assim alguma coisa de cura acontece. É fácil romantizar a cena. É exatamente por isso que ela merece ser levada a sério como política, não como anedota afetiva.

Antes do termo chegar, o sustento entre mulheres pretas já existia, e quem o segurava eram justamente as pessoas que o feminismo de vitrine insistia em esquecer. A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Brasil colonial, não era só associação religiosa. Era rede de proteção. Mulheres negras, escravizadas, libertas, forras, juntavam pra garantir a alforria umas das outras, cobrir enterro digno, sustentar a cria de quem foi vendida pra longe. O que circulava ali era a compreensão visceral de que, num mundo que tratava gente preta como propriedade, só outra mulher preta entenderia sem precisar de explicação.

Os terreiros repetiram essa lógica ao longo de toda a história. As mães de santo não eram só liderança espiritual, eram administração de redes onde o cuidado circulava sem preço. Beatriz Nascimento enxergava essa dimensão: o quilombo não era só fuga, era a organização de outra forma de vida. E bell hooks, em Sisters of the Yam (1993), lembrou que mulher preta cuidar de mulher preta não é gesto espontâneo, é aprendizado, porque o mundo ensina cedo que a outra é concorrente: pelo emprego, pela validação, por um lugar ao sol. Desaprender isso dá trabalho.

O feminismo universal não dá conta. Quando a sororidade é vendida como "irmandade entre todas as mulheres", a conta não fecha. Angela Davis, em Mulheres, Raça e Classe (1981), mostrou como o feminismo hegemônico montou a própria agenda sobre o corpo da mulher negra trabalhadora, cobrando cuidado, maternidade terceirizada, faxina. Lélia Gonzalez, em "Por um feminismo afro-latino-americano" (1988), foi direta sobre a cumplicidade das mulheres brancas com o racismo que oprimia as mulheres negras: a patroa que explorava a empregada e ao mesmo tempo se dizia feminista não era contradição, era característica estrutural. Irmandade sem análise de raça e classe vira, na melhor das hipóteses, happy hour. Na pior, exploração com verniz progressista. Quem limpa o apartamento da feminista branca não está numa relação de sororidade, está numa relação de trabalho.

A resposta a essa fratura tem nome. Sueli Carneiro, à frente do Geledés, cunhou "enegrecer o feminismo": não era encaixar mulheres negras num movimento já pronto, era refundar a base dele. Em novembro de 2015, a Marcha das Mulheres Negras levou dezenas de milhares de pessoas a Brasília sob o lema "Contra o racismo, a violência e pelo Bem Viver". Não tinha convite aberto pra mulher branca encabeçar. Algumas leram como exclusão. As organizadoras leram como condição pra que mulher negra ocupasse o centro sem negociar a própria visibilidade com quem historicamente apagou.

Tem ainda uma armadilha de dentro. A cultura enaltece a "mulher preta forte", a que aguenta tudo, cria a prole, segura a casa e ainda sorri. Esse elogio se apresenta como homenagem e funciona como cela. Quando a sororidade é entendida como "a gente se apoia porque é forte", a força vira obrigação, e quem não está dando conta sente vergonha de aparecer na roda. Beatriz Nascimento falava do cansaço como dado histórico, não como falha pessoal. Sororidade que presta tem que caber o choro sem conselho, a desistência sem julgamento, o silêncio sem cobrança. Apoio entre iguais não é discurso de motivação, é ombro, e às vezes é dinheiro emprestado, e às vezes é carona pro posto de saúde.

Sororidade preta não se decreta em post. Ela se mantém com combinados pequenos, repetidos, e com alguma disposição pro conflito, que é o que nenhuma fantasia de irmandade gosta de mencionar. Brigar, fazer as pazes, voltar, errar, pedir desculpa: isso é roda viva, não fracasso. É criar espaço regular de escuta sem pauta, grupo na mão, café do mês, círculo de leitura, onde ninguém precise entregar nada. É dividir dinheiro de verdade, vaquinha pra consulta, empréstimo sem juros, indicação profissional remunerada. É nomear o conflito de dentro com honestidade, porque racismo entre mulheres pretas existe, colorismo, classe, orientação, e não some por omissão.

A força não vem de uma palavra importada de um feminismo que não nos incluiu primeiro. Vem de uma prática que mulher preta vem afinando há séculos, com outros nomes, em outros cômodos. Sororidade, quando presta, é só o apelido recente de uma tecnologia antiga de sobrevivência coletiva. E essa tecnologia nunca coube em camiseta.

Este texto tem caráter educativo e não substitui o acompanhamento psicológico individual. Apoio entre iguais caminha junto com o cuidado profissional, não no lugar dele. Se você sente que precisa de escuta, procure uma psicóloga ou psicólogo. Em momentos de sofrimento intenso, o CVV atende de graça, 24 horas, pelo telefone 188.

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Não pare na teoria.

A leitura ajuda, mas não substitui escuta. Quando quiser, a busca está aberta.