Ensaio · Comunidade

Redes de apoio que curam

Rede de apoio preta não é hashtag de autocuidado. É o telefonema às três da manhã, o pix de emergência, a carona para o pronto-socorro psiquiátrico que o SUS demorou a oferecer.

Tempo de leitura7 min
Publicadojan 2025
CadernoComunidade

Uma amiga me contou, semana passada, que atravessou o episódio depressivo mais feio da vida dela sem ver psiquiatra por oito meses. O que segurou foi uma rede de cinco mulheres pretas que se revezavam em mensagens, almoços, empréstimos e, quando precisou, uma ficou três noites dormindo no sofá. Essa rede não surgiu num aplicativo de bem-estar. Foi construída em quinze anos de roda de conversa, de aniversário, de briga e reconciliação. A pergunta que fica é incômoda: por que a gente segue tratando cuidado coletivo como plano B do cuidado profissional, quando a evidência histórica mostra o contrário?

Cuidar em rede é tecnologia antiga.

O que Lélia já tinha avisado

Lélia Gonzalez, no texto A categoria político-cultural de amefricanidade (1988), cunhou essa ideia para mostrar que a cultura política das Américas pretas é, estruturalmente, uma cultura de rede. Não por escolha espiritual, por imposição histórica: um povo que não podia confiar na polícia, no juiz, no hospital, no patrão, construiu suas próprias formas de pertencer. Irmandades negras no Brasil colonial e sociedades beneficentes no pós-abolição funcionaram como redes formais de ajuda mútua, com caixas de auxílio, enterro digno e libertação de irmãs ainda escravizadas. Os terreiros, antes de a psicologia existir como profissão, já acolhiam o sofrimento que hoje chamaríamos de saúde mental. Rede de apoio preta não é invenção contemporânea do bem-estar. É continuidade de uma tecnologia de sobrevivência de séculos.

Patricia Hill Collins deu nome a uma das peças dessa engenharia: o othermothering, conceito que desenvolveu em Black Feminist Thought para nomear a prática pela qual mulheres pretas cuidam dos filhos umas das outras sem laço biológico nem obrigação formal. A comadre que busca a criança na escola quando a mãe entra no segundo turno, a vizinha que deixa o prato na porta nos dias difíceis, a madrinha que vira mãe de fato. O que a psicologia brasileira por muito tempo leu como "família ampliada", como atraso a superar, era na verdade um sistema sofisticado de redistribuir afeto, dinheiro e tempo. A teoria chegou depois. A prática já tinha séculos de estrada.

O perigo de romantizar a mãe preta coletiva

Mas aqui entra a tensão. Existe um discurso circulando, às vezes em nome da ancestralidade, que transforma a rede de apoio preta numa espécie de SUS afetivo gratuito e ilimitado. "A comunidade cura", "as mulheres pretas sempre se viraram", "terreiro é o verdadeiro consultório". Tudo isso tem verdade. E tudo isso, levado sem crítica, vira exploração. A mãe preta que sustenta a família inteira, a amiga que é terapeuta não paga de cinco pessoas, a liderança comunitária que nunca dorme: essas figuras não são símbolos a celebrar, são corpos a proteger.

bell hooks, em Sisters of the Yam: Black Women and Self-Recovery (1993), liga a recuperação emocional das mulheres pretas ao cuidado coletivo: a sororidade preta só se sustenta quando é recíproca, nunca quando é extração disfarçada de solidariedade. Rede que não cuida de quem cuida vira mais um turno de trabalho não remunerado. E, nesse ponto, deixa de curar e começa a adoecer. Romantizar o coletivo preto como infinitamente resiliente é, na prática, uma forma de não pagar a conta do cuidado. A pessoa que é o eixo da rede e raramente tem rede em torno de si: esse é o avesso do cuidado coletivo, e merece ser nomeado com a mesma honestidade.

Entre o terreiro e o consultório

A nuance que falta no debate é simples: rede de apoio comunitária e clínica profissional não são adversárias. São camadas complementares de uma mesma ecologia do cuidado. Quem defende só o comunitário em nome da ancestralidade está, sem querer, fazendo o jogo do Estado que não quer pagar psicólogo preto no SUS. Quem defende só o profissional em nome da cientificidade está apagando séculos de saberes pretos sobre sofrimento, vínculo e cura.

A literatura clínica que se diz mainstream confirmou tarde o que a comadre já sabia. Lisa Berkman, no estudo de coorte de Alameda County publicado com Leonard Syme em 1979, mostrou que laços sociais e comunitários são preditores de mortalidade independentes de fatores como tabagismo, peso e condição física inicial. A epidemiologia chegou às mesmas conclusões e, ao validar as redes, as privatizou no conceito: você tem uma rede, você cultiva sua rede, a rede vira recurso individual a ser gerido. A lógica da posse engole a lógica da reciprocidade. Frantz Fanon, que foi psiquiatra antes de ser referência anticolonial, já entendia o avesso disso: na linha sociogênica que atravessa Pele negra, máscaras brancas e Os condenados da terra, o adoecimento psíquico do colonizado nunca é só do indivíduo, é também sintoma político coletivo. Terapia sem rede desampara, rede sem terapia às vezes sobrecarrega. O corre é manter as duas de pé, com limite claro do que cada uma faz.

O que uma rede que cura de verdade pratica

Se a gente quer construir rede de apoio que não seja discurso bonito nem exploração velada, tem coisa concreta para fazer. Não é fórmula, é disposição.

  • Combine reciprocidade explícita: quem recebe cuidado hoje devolve amanhã, na forma que couber na vida de cada pessoa.
  • Tenha limite: ninguém precisa ficar disponível vinte e quatro horas. Grupo que não respeita sono e silêncio adoece.
  • Conecte com profissional quando a demanda ultrapassa a capacidade: amizade não substitui psiquiatra em crise aguda, e nem deveria.

A rede que me sustenta hoje não se chama comunidade. Se chama pelo nome de cada pessoa que atende quando eu ligo. E, quando uma delas me liga, eu atendo. Isso, feito com constância por décadas, é uma forma de cura que nenhuma sessão de cinquenta minutos consegue replicar sozinha. Nem quer. A cura, quando é séria, vem em camadas. E a camada preta, no Brasil, sempre foi a primeira a chegar e, por enquanto, a última a ser reconhecida como tal.

Este texto é educativo e reflexivo. Não substitui atendimento psicológico ou psiquiátrico individual. Se você está em sofrimento intenso, procure uma psicóloga ou psicólogo. Em momentos de crise, o CVV atende de graça e em sigilo pelo telefone 188, 24 horas por dia.

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