Ensaio · Comunidade

Solidariedade interseccional

Solidariedade interseccional não é somar minorias num comunicado conjunto. É aceitar que, dentro da própria negritude, existem contas que ainda não foram pagas.

Tempo de leitura7 min
Publicadojan 2025
CadernoComunidade

Numa reunião de movimento preto, anos atrás, uma mulher trans negra pediu a palavra e perguntou, sem rodeio: "Quando vocês dizem comunidade, eu estou aqui dentro ou só como símbolo quando chega a hora da foto?" O silêncio que se fez na sala dizia mais do que qualquer documento programático. Talvez você já tenha estado nessa sala. Talvez você já tenha sido essa pergunta. Interseccionalidade, no Brasil, costuma virar palavra de ordem para usar em data comemorativa. Mas o teste de verdade dela não acontece no microfone. Acontece na hora de saber quem, dentro da própria gente preta, continua pagando um preço maior só para pertencer.

Solidariedade começa dentro de casa.

Crenshaw aqui não é importação

Kimberlé Crenshaw nomeou a interseccionalidade no fim dos anos 1980 para descrever um problema concreto: mulheres negras não conseguiam ser ouvidas pela justiça quando a discriminação que sofriam misturava raça e gênero, porque a lei só sabia reconhecer um de cada vez. Foi em 1989, no artigo "Demarginalizing the Intersection of Race and Sex", que ela deu nome ao problema. O conceito viajou, mas no Brasil encontrou terra que já tinha sido arada. Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro e Beatriz Nascimento já vinham dizendo, com outras palavras, que ser mulher preta neste país não é a soma de duas identidades, é uma posição específica no mundo. Lélia, inclusive, propôs a categoria da amefricanidade anos antes de a palavra interseccionalidade existir em inglês.

A novidade, então, não é o conceito. É o que a gente faz com ele quando a conta chega em casa. Porque uma coisa é citar a palavra numa legenda bonita. Outra é admitir que o movimento preto teve, e ainda tem, machismo, transfobia, lgbtfobia, capacitismo e colorismo nas próprias fileiras. Solidariedade interseccional é o que se pratica de lado, entre iguais que não são tão iguais assim.

O cansaço de quem segura a pauta sozinha

Angela Davis, em Mulheres, Raça e Classe (1981), já mostrou como, ao longo da história, a mulher negra foi convocada a ser coluna de dois movimentos, o feminista e o antirracista, sem que nenhum dos dois a protegesse de verdade. Décadas depois, a estrutura mudou menos do que a gente queria. No movimento negro, cobram que ela coloque raça na frente do gênero. No feminismo de maioria branca, cobram que ela coloque gênero na frente da raça. E ela, no meio, sustentando duas frentes com uma vida só.

Se a solidariedade interseccional não começa por aí, ela não começa em lugar nenhum. Não dá para pedir que uma mulher trans negra carregue sozinha a denúncia da transfobia dentro do movimento enquanto a liderança de homens cis segue sem escutar. Não dá para pedir que uma lésbica negra seja a professora afetiva de um grupo que a torna invisível. A conta precisa ser redividida. E redivisão sempre incomoda quem tinha algum privilégio relativo dentro da própria margem.

Interseccionalidade não é concurso de dor

Tem um uso torto da palavra que também precisa ser nomeado. É quando ela vira campeonato de quem sofre mais, tabela de pontos para decidir quem tem mais direito de falar. Isso não é política, é disputa de vaidade. Interseccionalidade não serve para hierarquizar dor. Serve para enxergar como vários sistemas de poder se sobrepõem num mesmo corpo, e como a estratégia de luta precisa levar isso em conta.

Paulo Freire dizia que ninguém se liberta sozinho, e ninguém liberta ninguém: a gente se liberta em comunhão (Pedagogia do Oprimido). Comunhão, aqui, não é fusão. É coordenação. Homens pretos cis podem e devem se organizar contra o racismo sem terceirizar para mulheres trans negras a aula de gênero que cabe a eles fazer. O material está disponível. Aprender é tarefa de cada um antes de virar tarefa coletiva.

A prova está nas decisões pequenas

Saindo da abstração, solidariedade interseccional se mede em escolhas que ninguém vai filmar. Quem convida quem para a mesa. Quem fala primeiro na reunião. Quem faz o trabalho de cuidado do grupo sem que ninguém reconheça. Quem aparece como autoria no texto e quem fica só na nota de rodapé. É ali que se vê se a prática acompanha o discurso. No Brasil isso já tem nome e corpo. Sueli Carneiro institucionalizou essa lógica quando fundou o Geledés, em 1988, para tratar racismo e violência de gênero como faces do mesmo projeto sobre corpos negros. Marielle Franco levou a mesma síntese para dentro de um mandato, articulando pauta negra e pauta LGBTQIA+ como uma coisa só, antes de ser assassinada em 2018. E a Coalizão Negra por Direitos juntou centenas de organizações na tentativa de costurar o que a fragmentação separa.

  • Redistribua visibilidade: em mesa, em bibliografia, em liderança, em cachê de palestra.
  • Escute a crítica de dentro sem tratar como traição: reclamação interna é sinal de saúde, não de racha.
  • Banque o conflito que constrói: solidariedade sem confronto vira cumplicidade silenciosa, e o silêncio, nesse caso, trabalha a favor da estrutura.

A gente preta não precisa de mais unidade de fachada. Precisa de uma convivência em que a diferença interna não seja varrida para baixo do tapete em nome de uma frente única que, no fim, só beneficia quem já estava na frente. Solidariedade interseccional, entendida como política do comum, é isso: a disposição diária de acertar, entre iguais, as contas que ninguém quer ver cobradas. E continuar na roda mesmo depois que a foto já foi tirada.

Este texto tem caráter educativo e de reflexão coletiva. Não substitui acompanhamento psicológico individual. Se o peso dessas vivências estiver pesando na sua saúde mental, procurar uma psicóloga ou um psicólogo de confiança é um cuidado legítimo. O CVV (Centro de Valorização da Vida) também acolhe pelo 188, ligação gratuita, 24 horas.

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Não pare na teoria.

A leitura ajuda, mas não substitui escuta. Quando quiser, a busca está aberta.